Sábado, 11 de Julho de 2009

Meio-fio

Vento quente e passos rápidos. Bolsa de papel apertada contra o peito e vestido na altura dos joelhos com estampa de florzinhas que de longe parecem bolinhas coloridas. Bola rola nos paralelepípedos quentes, são férias. Mulheres cansadas com suas vidas na boca conversam por cima dos muros baixos. Ela passa rápido e olha para o chão concentrada tentando descobrir o assunto. Um caminhão que vai entregar a cama nova da vizinha passa pela rua e arrebenta um dos fios de eletricidade. Ela passa, mas ninguém vê.

Sábado, 4 de Julho de 2009

A bússola aponta sempre para o norte

Pensou nos filhos sem futuro, pensou no choro da esposa, lembrou até dos latidos importunos do cachorro durante a noite e continuou a andar. Não andava por liberdade, não mesmo, andava tentando achar um rumo, uma direção. Perdia-se toda vez que olhava para o céu, tinha inveja das nuvens, do azul, do nada. Pisava em passos firmes, afinal não ter um rumo não era desculpa para não ser intenso. No sapato carregava dedos ativos e animados que se mexiam entre os contatos do sapato com o solo. Estava em êxtase constante, o que era difícil explicar para um sujeito mal letrado e com uma vida tão sem..., sem..., enfim, sem. Cogitou diversas vezes durante seu percurso a não existência de um rumo a seguir, sendo esse o único caminho verdadeiro. Desistiu de cogitar, cansava demais. Já lhe mostraram alguns caminhos alternativos, a maioria com salvação espiritual no final, ele simples não se importava com o final, mas o que viveria até chegar lá, agradecia e continuava a andar. Divertiu-se quando lhe fizeram uma proposta para a venda de sua alma; "Chefia, não posso vender uma coisa que não sei se tenho no estoque." - Respondeu maroto. E sem muitas explicações e algumas dores que fez questão de enfrentar, ele morreu.

Sábado, 27 de Junho de 2009

Cama

O sopro doce sobre a pele macia, a música cantada bem baixinho e o cheiro forte de terra molhada. Chove lá fora, de cinza a paisagem já familiar, amiga, é tingida. O mundo pára entre as piscadas demoradas do olho caído. Pode ser que quando acorde esteja frio e sem chuva, se sim, sairá para terminar de decorar a casa que faz para o gato que vai ganhar de aniversário, ou pode subir na árvore que admira há anos pela janela de seu quarto.
O pé sente o lençol macio e a mão puxa a mão da mãe como se fosse ela o melhor cobertor do mundo. Sente-se seguro para dormir durante a tarde, pensa que talvez os monstros que podem oferecer perigo durante a noite podem estar ocupados demais para se interessar em perturbar seu sono vespertino.
Como não pode ser feliz? Ouvira o pai falar da existência de muita tristeza no mundo, não consegue entender, sente-se culpado. Seria ele a exceção ou mais uma anomalia? Não vê defeito no mundo e alegra-se quando as coisas não vão como devem ser, não tem medo do futuro. Será egoísmo? Por possuir muitas coisas, física e emocionalmente, ficara indiferente à tristeza do mundo? "Criança não precisa pensar nisso menino!" - Respondem sempre que pensa alto. Não pensa alto, nem fala sozinho por defeito, só gosta da sensação de conversar consigo mesmo. Dorme enfim.

Sábado, 20 de Junho de 2009

Grey Garden

Gosto tanto quando um filme faz sair do normal, do superficial. Flutuei com esse tal jardim, me transpus. Tive medo do futuro, de perder cabelo e de não ser.